VALOR INTRÍNSECO
Rui Barbosa, um dos homens
mais cultos da nossa terra nos tempos antigos, foi usado como protagonista
desta história; ninguém garante que foi ele, mas tudo bem, vamos aceitar.
Conta que sua casa foi
assaltada por um ladrão de galinha – não se assustem, antigamente tal feito era
muito comum nas casas que criavam galinhas em quintais, sendo o delicioso e
nutritivo galináceo um item de enorme valor.
Após o evento, Rui se dirigiu
à delegacia da cidade para prestar uma queixa (hoje o famigerado Boletim de
Ocorrência). Lá chegando, foi ter com o delegado e explicou que viera para
relatar fato ocorrido na noite pretérita: um furto, não sendo pelo valor intrínseco do galináceo, mas
pela ousadia que teve o larápio de transpor os soberbos umbrais de sua
residência e surrupiar o bípede que fazia parte da sua egrégia coleção de
ródias e que seria sacrificada nos dias vindouros em decorrência de seu
natalício. (perceba, caro leitor, se qualquer um de nós narrasse o fato seria
com umas, talvez, quatro palavras, como: delegado, furtaram minha galinha –
apenas).
Bom, não era exatamente
sobre isso que eu gostaria de falar, daí extraí duas palavras: valor intrínseco e galinha, pois hoje quando fui buscar minha marmita,
dona Mazé, disse que tinha galinha caipira no cardápio, eis que aceitei e ela
perguntou se eu queria um pé, quis, e quando estava a degustar a delícia me
veio tal lembrança.
Quando éramos pequenos, meu
pai fazia comércio com o interior, levava tecidos e outras coisas e de lá trazia
ovos e galinhas caipiras para a capital - novamente não estranhem, naquele
tempo não existiam granjas, logo, na capital se comiam ovos e galinhas vindos
dos terreiros do sertanejo, daí o título da galinha e ovo caipira.
Ele as remetia no trem em
pesadas grades e eu ia busca-las na estação, as tirava das grades e trazia
vivas penduradas pelos pés.
Galinha era uma iguaria
cara, dada a importação, era até um certo símbolo de status, sendo costume
come-las apenas aos domingos. Lembro-me de quando comecei a andar de bicicleta,
que era alugada, por ser um item raro e caro, fui até a estação ferroviária buscar as
galinhas, amarrei-as pelos pés no guidom da bicicleta, mas, durante a viagem, uma aventureira meteu a
cabeça entre o garfo e os raios da roda e perdeu a cabeça ali mesmo. Ao chegar
em casa com a galinha sem cabeça, tivemos que almoçá-la num dia que não era
domingo e tal fato era absolutamente extraordinário.
Aos domingos minha mãe
fazia a especiaria com o maior zelo, esmero, era apenas uma galinha para oito
pessoas, certo que era bem gorda e pesada, mas até hoje acho bem pouco. Cortada cirurgicamente na panela com
pedaços específicos que na hora da distribuição seguia-se um ritual de
hierarquia dos consumidores: a casta dos comedores de galinha dos domingos.
Pai, mãe, mais velhos e a raça miúda que ficava no granel ia para os menores.
Como eu gostava muito do pé, minha mãe sempre dava um jeito de camufla-lo na
panela para, sem querer, escapulir para meu prato.
Havia uma história de um
homem do sertão que foi para a cidade grande, ficou rico e depois de muitos
anos voltou ao seu lugarzinho, que parecia ter parado no tempo, estava
igualzinho como o deixou, muito feliz ao ver sua mãe, já velhinha, mas ainda
fazia muitas coisas, disse: meu filho hoje vamos comer uma galinha, e você vai
comer os dois pés que você gosta muito! Sua boca encheu d’água, ele nem
lembrava mais que gostava de pé de galinha, assim como eu. Ora mamãe, mande
comprar no vizinho que tem muitas, dez galinhas pra eu comer todos os pés! Era
tanta galinha que tiveram que distribuir com os vizinhos. O fato é que ele
ficou com vinte pés de galinha para comer e, depois de tudo prontinho, foi
comendo, comendo, comendo, ao passo que percebeu que não conseguiria comer
tudo, o sabor já não era o mesmo do primeiro.
Onde quero chegar? No valor
INTRÍNSECO lá do começo. Descobri hoje, comendo o pé de galinha da marmita,
que o sabor, o valor do pé de galinha que minha mãe guardava pra mim estava no
seu valor intrínseco, a raridade, duas unidades apenas para uma grande disputa,
o esmero do preparo, eu era o premiado. Aquele rapaz que queria comer dez pés
perdeu esse valor, que não está na quantidade, mas no intrínseco. Vezenquando
encontro esse valor intrínseco em muitas outras pequenas
coisas, pois ele existe e é imensurável.
Zé Targino, mais também conhecido como Zé de Adélia.


