segunda-feira, 18 de agosto de 2025

 

VALOR INTRÍNSECO

     Rui Barbosa, um dos homens mais cultos da nossa terra nos tempos antigos, foi usado como protagonista desta história; ninguém garante que foi ele, mas tudo bem, vamos aceitar.

   Conta que sua casa foi assaltada por um ladrão de galinha – não se assustem, antigamente tal feito era muito comum nas casas que criavam galinhas em quintais, sendo o delicioso e nutritivo galináceo um item de enorme valor.

   Após o evento, Rui se dirigiu à delegacia da cidade para prestar uma queixa (hoje o famigerado Boletim de Ocorrência). Lá chegando, foi ter com o delegado e explicou que viera para relatar fato ocorrido na noite pretérita: um furto, não sendo pelo valor intrínseco do galináceo, mas pela ousadia que teve o larápio de transpor os soberbos umbrais de sua residência e surrupiar o bípede que fazia parte da sua egrégia coleção de ródias e que seria sacrificada nos dias vindouros em decorrência de seu natalício. (perceba, caro leitor, se qualquer um de nós narrasse o fato seria com umas, talvez, quatro palavras, como: delegado, furtaram minha galinha – apenas).

    Bom, não era exatamente sobre isso que eu gostaria de falar, daí extraí duas palavras: valor intrínseco e galinha, pois hoje quando fui buscar minha marmita, dona Mazé, disse que tinha galinha caipira no cardápio, eis que aceitei e ela perguntou se eu queria um pé, quis, e quando estava a degustar a delícia me veio tal lembrança.

     Quando éramos pequenos, meu pai fazia comércio com o interior, levava tecidos e outras coisas e de lá trazia ovos e galinhas caipiras para a capital - novamente não estranhem, naquele tempo não existiam granjas, logo, na capital se comiam ovos e galinhas vindos dos terreiros do sertanejo, daí o título da galinha e ovo caipira.

    Ele as remetia no trem em pesadas grades e eu ia busca-las na estação, as tirava das grades e trazia vivas penduradas pelos pés.

      Galinha era uma iguaria cara, dada a importação, era até um certo símbolo de status, sendo costume come-las apenas aos domingos. Lembro-me de quando comecei a andar de bicicleta, que era alugada, por ser um item raro e caro,  fui até a estação ferroviária buscar as galinhas, amarrei-as pelos pés no guidom da bicicleta,  mas, durante a viagem, uma aventureira meteu a cabeça entre o garfo e os raios da roda e perdeu a cabeça ali mesmo. Ao chegar em casa com a galinha sem cabeça, tivemos que almoçá-la num dia que não era domingo e tal fato era absolutamente extraordinário.

     Aos domingos minha mãe fazia a especiaria com o maior zelo, esmero, era apenas uma galinha para oito pessoas, certo que era bem gorda e pesada, mas até hoje acho bem pouco.     Cortada cirurgicamente na panela com pedaços específicos que na hora da distribuição seguia-se um ritual de hierarquia dos consumidores: a casta dos comedores de galinha dos domingos. Pai, mãe, mais velhos e a raça miúda que ficava no granel ia para os menores. Como eu gostava muito do pé, minha mãe sempre dava um jeito de camufla-lo na panela para, sem querer, escapulir para meu prato.

    Havia uma história de um homem do sertão que foi para a cidade grande, ficou rico e depois de muitos anos voltou ao seu lugarzinho, que parecia ter parado no tempo, estava igualzinho como o deixou, muito feliz ao ver sua mãe, já velhinha, mas ainda fazia muitas coisas, disse: meu filho hoje vamos comer uma galinha, e você vai comer os dois pés que você gosta muito! Sua boca encheu d’água, ele nem lembrava mais que gostava de pé de galinha, assim como eu. Ora mamãe, mande comprar no vizinho que tem muitas, dez galinhas pra eu comer todos os pés! Era tanta galinha que tiveram que distribuir com os vizinhos. O fato é que ele ficou com vinte pés de galinha para comer e, depois de tudo prontinho, foi comendo, comendo, comendo, ao passo que percebeu que não conseguiria comer tudo, o sabor já não era o mesmo do primeiro.  

Onde quero chegar? No valor INTRÍNSECO lá do começo. Descobri hoje, comendo o pé de galinha da marmita, que o sabor, o valor do pé de galinha que minha mãe guardava pra mim estava no seu valor intrínseco, a raridade, duas unidades apenas para uma grande disputa, o esmero do preparo, eu era o premiado. Aquele rapaz que queria comer dez pés perdeu esse valor, que não está na quantidade, mas no intrínseco. Vezenquando encontro esse valor intrínseco em muitas outras pequenas coisas, pois ele existe e é imensurável.

Zé Targino, mais também conhecido como Zé de Adélia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário