quinta-feira, 11 de junho de 2020

SÃO JOÃO NA ROÇA





SÃO JOÃO NA ROÇA

A fogueira tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou
Vamos gente, rapapé nesse salão
Dança Joaquim com Zabé
Luiz com Yaiá
Dança Janjão com Raque
E eu com Sinhá
Traz a cachaça Mané!
Que eu quero ver
Quero ver paia* avoar

(*) paia refere-se à palha de milho espalhada pelo arraiá,
grande fartura por causa da safra do milho e do consumo nas festas.

          Essa é a letra de uma das músicas mais conhecidas do repertório junino. Luiz Gonzaga tatuou na nossa mente essa e muitas outras inesquecíveis pérolas do cancioneiro popular. Hoje sinto falta realmente de novas músicas de qualidade, poesia, melodia, mas para superar temos as antigas, fico com elas. Duas coisas que identifico servirem de agregadores de lembranças e sentimentos: a musica e o perfume. É impressionante como associam. Descobri por que gostava de várias músicas estrangeiras sem entender patavina da letra: era que elas associavam um tempo, um momento emocionante vivido, com o perfume idem: quando sinto o cheiro do patchouli, me vem à mente um verdadeiro filme de um lindo tempo vivido.
            Agora falando da “fogueira está queimando”, tem uma coisa jocosa sobre a sua história comigo: “a fogueira queimando”, as comidas nas barraquinhas e a música tocando, mas quando chegava a vez de “a fogueira está queimando” eu ficava atento à uma frase da música:  “Que eu quero ver, Quero ver paia avoar”, acontece que eu entendia assim: “Que eu quero ver, Quero ver PAI avoar”. Aquilo me intrigava, olhava pro meu pai, seu Toim, e imaginava ele voando! Coisa de criança, e pra justificar eu recorria à frase anterior: “Traz a cachaça Mané!”, bem se ele beber a cachaça poderá voar, como ele não bebia ficava a dúvida, que foi dirimida muito tempo depois quando, enfim, vi a letra da música num folhetim.
            Outro engano que tive na infância e perdurou por um bom tempo foi em relação ao PAI NOSSO, isso mesmo, a oração que o Senhor nos ensinou. Descuidado com as obrigações religiosas só rezava de ouvido, não pegava o catecismo pra dar uma lida, acabou que entendi, na época, que a parte que diz: ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU, entendi e rezava assim: ASSA NA TERRA COME NO CÉU. É verdade! E quando rezava sempre me imaginava no churrasco celestial. Depois que um dia me atentei para a letra escrita num missal, vi a gafe que estava cometendo e preocupei-me com os milhares de pai-nosso rezados em vão! E agora? Depois de muita meditação concluí que a situação estava resolvida, vejam bem: o verdadeiro sentido de assar na terra pra comer no céu enquadra-se perfeitamente no posicionamento cristão de que façamos a coisa boa aqui na terra pra colher os frutos no paraíso, se não fizer aqui na terra não colherá no céu, aí deu certo: assar na terra pra comer no céu. Fiquei aliviado, pois sem querer salvei milhares de orações.
            Besteira? Sim... Talvez... Ou não, mas são lembranças da infância que revivem nessas épocas específicas, alimentando nossa alma com coisas boas e esperanças de que o mundo pode ser sempre melhor, principalmente se nas unidades desse Universo tentarmos ser melhores alimentados por boas lembranças ou, até mesmo, por experiências dolorosas.

Zé Targino, conhecido no Fechado como Zé de Adélia.
                                                                 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

ZEDEZEQUINHA


ZEDEZEQUINHA

      Foi o tempo que me fez perceber a beleza, a poesia, a nobreza de poder-se agregar ao seu próprio nome o nome daquela que é a pessoa mais importante na vida de um ser: a mãe.  Embora esse fato acontece por conta da grande concorrência no uso de alguns nomes, gerando grande número de homônimos de repente torna-se uma das coisas mais significativas em termo de nome de pessoas, ou seja, a ligação da cria com a mãe.
     Fato mais comum entre as pessoas mais simples mas não menos sábias e sensíveis, estes(as) identificáveis gozam deste privilégio e homenageiam sem saber da importância do fato, e vejam o mais interessante, quem os nomeiam assim é a própria comunidade onde convivem numa fórmula  que os identifica com exatidão sem saber que estão fazendo uma homenagem nobre.
     O primeiro nome com essa característica que me despertou foi o ZEDELIA, quanto mais eu pronunciava este nome mais identificava a poesia contida nele, fiquei realmente tocado, oriundo dos recantos de um sertão seco mais de uma beleza selvagem, homenageia uma figura que não podemos arriscar em descrevê-la com poucas palavras de tanta energia e beleza que tem.
      As vezes elas são tão fortes que que agregam nome até ao marido, quando este tem um nome mais comum para não ser confundido com os outros. Exemplo: TOIMDEAMELIA.
     Fui criado na capital, tenho um nome não muito comum e pouco fácil de pronunciar: Jose Almáquio ( adoro meu nome), só descobri a origem desse meu nome visitando uma igreja em Bergamo na Itália, quando via uma imagem com o nome embaixo San Almáquio de Roma, ai foi que me toquei que nunca tinha pesquisado a origem desse nome, agora sei.  Se tivesse me criado no interior com certeza seria chamado de zedeadélia, minha mãe me chama de zealmaquio, vejam bem as mães jamais renomeiam os filhos agregando o seu próprio nome isso é tarefa da comunidade.
      Muito interessante esse fato: quando uma mãe vai se referir a um filho tem o seu nome agregado, como por exemplo zedeadelia, ela fala ZEMEU, isso mesmo, um nome único que só pode ser falado por ela, interessante né.  Às vezes fico pensando se esse fenômeno ocorresse por exemplo na china, onde os nomes são pequenos e suponho ter milhões de homônimos, imagina um filho de xin jim ping, ser chamado de xin de xin jim, que confusão.
       Bem, enfatizada a rainha do lar, onde nesse caso é maioria esmagadora não podemos deixar de destacar também que o pai é utilizado nessa renomeação, posso destacar um caso existente na nossa praia (Quixaba), seu Zequinha, pescador, homem forte, baixinho, quinze filhos tendo um deles que se chama Jose, esse portando foi renomeado de ZEDEZEQUINHA, até ai tudo bem, acontece que ze  de zequinha casou e teve o primeiro filho que também, fiel à devoção do santo,  foi batizado como Jose da Silva, logo sobrou pra ele o codinome de ZEDEZEDEZEQUINHA, pois bem, se o neto de seu Zequinha teimar em ter um filho chamado Jose ai vai ser demais teremos o ZEDEZEDEZEDEZEQUINHA, ficaria complicado apesar de ser inevitável.
       De qualquer forma Eu mesmo resolvi me codinominar de ZEDEADÉLIA, acho poético e justa a homenagem.
Zetargino, conhecido também como Zedeadélia.