SÃO JOÃO
NA ROÇA
A fogueira
tá queimando
Em homenagem a São João
O forró já começou
Vamos gente, rapapé nesse salão
Em homenagem a São João
O forró já começou
Vamos gente, rapapé nesse salão
Dança
Joaquim com Zabé
Luiz com Yaiá
Dança Janjão com Raque
E eu com Sinhá
Luiz com Yaiá
Dança Janjão com Raque
E eu com Sinhá
Traz a
cachaça Mané!
Que eu quero ver
Quero ver paia* avoar
Que eu quero ver
Quero ver paia* avoar
(*) paia refere-se à palha de milho espalhada pelo arraiá,
grande fartura
por causa da safra do milho e do consumo nas festas.
Essa é a letra de uma das músicas mais conhecidas do repertório junino. Luiz
Gonzaga tatuou na nossa mente essa e muitas outras inesquecíveis pérolas do
cancioneiro popular. Hoje sinto falta realmente de novas músicas de qualidade,
poesia, melodia, mas para superar temos as antigas, fico com elas. Duas coisas
que identifico servirem de agregadores de lembranças e sentimentos: a musica e
o perfume. É impressionante como associam. Descobri por que gostava de várias
músicas estrangeiras sem entender patavina da letra: era que elas associavam um
tempo, um momento emocionante vivido, com o perfume idem: quando sinto o cheiro
do patchouli, me vem à mente um
verdadeiro filme de um lindo tempo vivido.
Agora falando da “fogueira está queimando”, tem uma coisa jocosa sobre a
sua história comigo: “a fogueira queimando”, as comidas nas barraquinhas e a
música tocando, mas quando chegava a vez de “a fogueira está queimando” eu
ficava atento à uma frase da música: “Que
eu quero ver, Quero ver paia avoar”, acontece que eu entendia assim: “Que eu
quero ver, Quero ver PAI avoar”. Aquilo me intrigava, olhava pro meu pai, seu
Toim, e imaginava ele voando! Coisa de criança, e pra justificar eu recorria à
frase anterior: “Traz a cachaça Mané!”, bem se ele beber a cachaça poderá voar,
como ele não bebia ficava a dúvida, que foi dirimida muito tempo depois quando,
enfim, vi a letra da música num folhetim.
Outro engano que tive na infância e perdurou por um bom tempo foi em
relação ao PAI NOSSO, isso mesmo, a oração que o Senhor nos ensinou. Descuidado
com as obrigações religiosas só rezava de ouvido, não pegava o catecismo pra
dar uma lida, acabou que entendi, na época, que a parte que diz: ASSIM NA TERRA
COMO NO CÉU, entendi e rezava assim: ASSA NA TERRA COME NO CÉU. É verdade! E
quando rezava sempre me imaginava no churrasco celestial. Depois que um dia me
atentei para a letra escrita num missal, vi a gafe que estava cometendo e
preocupei-me com os milhares de pai-nosso rezados em vão! E agora? Depois de
muita meditação concluí que a situação estava resolvida, vejam bem: o
verdadeiro sentido de assar na terra pra comer no céu enquadra-se perfeitamente
no posicionamento cristão de que façamos a coisa boa aqui na terra pra colher
os frutos no paraíso, se não fizer aqui na terra não colherá no céu, aí deu
certo: assar na terra pra comer no céu. Fiquei aliviado, pois sem querer salvei
milhares de orações.
Besteira? Sim... Talvez... Ou não, mas são lembranças da infância que
revivem nessas épocas específicas, alimentando nossa alma com coisas boas e
esperanças de que o mundo pode ser sempre melhor, principalmente se nas
unidades desse Universo tentarmos ser melhores alimentados por boas lembranças
ou, até mesmo, por experiências dolorosas.
Zé Targino, conhecido no Fechado como Zé de Adélia.

