segunda-feira, 29 de junho de 2026

 DO  MEU PONTO DE VISTA 

Zetargino  (zedeadelia)

 

          Sempre que estamos dialogando e precisamos reafirmar uma posição ou pensamento que não temos certeza da unanimidade, nos deparamos com a frase "do meu ponto de vista". 

          Valorizo demais a opinião das pessoas, concordando com elas ou não, sempre estou atento ao ponto de vista de cada um na tentativa de agregar a meu conhecimento algo novo. 

          Posso destacar em especial o pensamento e a experiência vivida as pessoas mais humildes do interior, cujo conhecimento empírico supera, em muitas vezes, qualquer enciclopédia. 

          Vou relatar um fato que aconteceu comigo e que marcou bastante: estávamos todos reunidos na nossa querida praia de Quixaba, na ocasião de um feriado de Carnaval, gente amiga que não víamos há bastante tempo. Nessa turma toda havia um casal de amigos que frequentava esporadicamente a “nossa” praia, e que na ocasião já estava com aproximadamente um ano que não aparecia. Eles, como nós também, eram bastante entrosados com os nativos, amizades antigas. A esposa do amigo estava um pouco diferente do ponto de vista físico, ela era um tanto magra, entretanto, tinha adquirido um porte físico bastante interessante, transformando- a em uma mulher mais bela e formosa. 

            Saíram para uma visita ao seu Kikito, um pescador da vila bastante interessante por seus causos e experiências de vida no mar e também em terra. Lá chegando seu Kikito ao vê-la exclamou: nossa, dona Fulana! Como a senhora está bonita, parece uma burra (égua) gorda comendo no patoral (relva verde que nasce nas terras úmidas próximo aos correntes de agua doce), então completou com a frase “benza Deus”!

           Foram todos lá para casa: ela em lágrimas comentou com todos “vocês acreditam que o seu Kikito me comparou com uma burra comendo no patoral? Estou arrasada!”.

Foi quando eu cheguei e ouvi o lamento, daí fui explicar para ela que as coisas existem do tal “ponto de vista”. Falei: olha, querida, veja bem, seu Kikito fez à você o maior dos elogios, porque do ponto de vista dele, a coisa mais linda que ele acha é uma égua gorda comendo tranquilamente no patoral! Foi a isso com que ele quis te comparar: a coisa mais linda que ele acha, com a qual ele vive, é a maneira dele de ver as coisas.

           Demorou para ela se convencer, mas acabou aceitando, a partir de então, sempre tenho cuidado em considerar o ponto de vista das pessoas, porque sabemos que por trás de cada opinião, de cada ponto de vista, existe uma vivência e um conhecimento específico de cada um.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

 SÃO JOÃO NA ROÇA 

Zetargino (zedeadelia)


É tanta fogueira, é tanto balão!

Essa época do ano é um tempo que me traz grandes lembranças da minha infância. No nosso sertão coincide essa época com a colheita do milho, elemento que protagonizava a beleza da festa. 

Em relação às músicas, sempre muito características do momento, e muito fáceis de identificar as músicas de São João. Hoje em dia está meio complicado, principalmente nas festas promovidas pelas prefeituras: vê-se uma salada mista de música sertaneja, samba, funk, e outros ritmos competindo com as músicas juninas, tudo em nome do dinheiro. 

Pois bem, falando das festas de antigamente, reunia-se nos terreiros das fazendas toda a vizinhança, tudo acontecia ao redor de uma grande fogueira, enquanto o forrozinho tocado na sanfona de 8 baixos, numa sala de reboco, animava os dançantes. Ao redor da fogueira as moças se divertiam fazendo adivinhações na bacia cheia d'água, tentando ver a sorte e com quem iam casar. As crianças corriam de um lado para outro desordenadamente. 

Existiam alguns elementos que animavam a festa, principalmente as crianças, chamados de CARETAS. Eram homens da comunidade trajados com trapos de juta, incluindo camuflar a cabeça para que não fossem identificados. Eram presenças importantes e bastante destacadas. Meu pai fazia parte desta trupe, embora fosse impossível identificá-lo devido à sua camuflagem. 

Existe uma música junina que fala assim: a fogueira está queimando em homenagem a São João, o forró já começou, vamos gente arrastar pé nesse salão! Dança Joaquim com Zabé Luiz com Yaya, dança Janjão com Raquel e eu com sinhá, traz a cachaça, Mané que eu quero ver PAIA AVOAR. 

Realmente havia muita palha de milho espalhada no terreiro. O que eu quero destacar é o seguinte: eu entendia “eu quero ver PAI AVOAR”. 

Ficava olhando para os caretas tentando identificar o meu pai e ao mesmo tempo imaginando que a qualquer momento ele podia voar. 

Claro que com passar dos tempos entendi a letra, mas hoje quando penso nessa história vejo que realmente ele voou para um espaço desconhecido e que deixou saudades.